Sentei no banco de madeira que ficava no meio do gramado. Queria descansar de todas as dores que algum dia senti. Deixei que o tempo passasse. O sol caminhava em partida quando tirei minha sapatilha:
- É como se elas já não me servissem mais.
Levantei os olhos soltando o peso da cabeça. Assim fiquei por outro longo período. Queria descobrir minha respiração sem perceber seu ritmo ou intensidade. Só queria sentir o tempo passar:
- É como se eu buscasse o céu.
Sorri para uma criança que pulava descalça, livre em seu vestido branco. Experimentei toda felicidade do mundo quando ela sorriu de volta para mim. É como se pudesse olhar para o espelho do passado, pensei.
domingo, 12 de setembro de 2010
domingo, 29 de agosto de 2010
Era ela
Um lugar onde o céu encontra o infinito. Areias brancas, recheadas de passos cor de borboleta. No cair da tarde o horizonte de paisagens nunca vistas. Terreno de ninguém.
- Quando vi, soube que podia respirar o ar do mundo todo. Senti o tempo parar. Pensei em tudo que já vivi, mas não nunca havia conseguido encontrar. A paz dentro e fora de mim. Por alguns segundos respirei fundo, tentando preencher meus medos pela atmosfera deste lugar. Pisei no chão tão profundamente que parecia espancar o solo com a raíz de minh'alma. Senti o vento me beijar.
Então desistiu, contorcendo-se harmoniosamente. Primeiro o tronco tomou a frente, seus braços e cabeça penduraram. O quadril deslizou para lateral enquanto seus joelhos cediam ao peso. Sentou-se no chão, permitindo que seu tronco tocasse o solo gélido e aquático. Esticou as pernas e respirou.
Agora fazia parte do infinito.
- Quando vi, soube que podia respirar o ar do mundo todo. Senti o tempo parar. Pensei em tudo que já vivi, mas não nunca havia conseguido encontrar. A paz dentro e fora de mim. Por alguns segundos respirei fundo, tentando preencher meus medos pela atmosfera deste lugar. Pisei no chão tão profundamente que parecia espancar o solo com a raíz de minh'alma. Senti o vento me beijar.
Então desistiu, contorcendo-se harmoniosamente. Primeiro o tronco tomou a frente, seus braços e cabeça penduraram. O quadril deslizou para lateral enquanto seus joelhos cediam ao peso. Sentou-se no chão, permitindo que seu tronco tocasse o solo gélido e aquático. Esticou as pernas e respirou.
Agora fazia parte do infinito.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
CRÔNICAS DO PASSADO E PRESENTE - diários de um professor
Por Fábio de Amorim (poeta, contista, jornalista e professor de português)
O professor levanta cedo, sai de casa com o café da manhã sendo digerido rapidamente. Caminha dez minutos a pé até um ponto de ônibus. Espera cinco minutos apenas, afinal, um país está saindo de casa naquela hora. O professor consegue entrar no ônibus.
Agradece numa breve oração o fato de ser bem magro e poder caber, com pouco desconforto, entre duas senhoras obesas, o ferro do banco do ônibus e as alças de apoio, que lhe batiam no rosto. Todo apoio é necessário para aquele momento em que o motorista resolve frear bruscamente e você cai.
Você e todas as outras "peças" de dominó chamadas de pessoas. A viagem poderia ser mais agradável se o ano todo não chovesse, não fizesse frio, não fizesse calor de deserto. Porque em uma qualquer dessas situações, as janelas são fechadas (respire-se num ambiente desses!), ou são abertas, mas aí são fechadas de novo porque chove.
Mas faz calor, então ficamos de janelas fechadas, no calor, porque está chovendo, e a água entra no ônibus porque nenhum gênio da arquitetura automotiva pensou num jeito de evitar que se precise fechar janelas quando chove. Será que é tão difícil inventar um guarda-chuva de ônibus? O professor, vinte ou trinta minutos, depois chega a uma estação de metrô.
Desce do ônibus, entra na estação, pega o metrô. Faz três baldeações e em trinta e dois minutos chega ao seu destino. Ou melhor, quase. Caminha mais dez minutos no meio do barulho de sempre, dos mendigos de sempre, das crianças de rua de sempre, atravessa uma avenida e finalmente chega a escola onda dará suas aulas.
Como sempre, chegou na hora certa. Hora de cumprimentar os colegas, tomar um café mal feito, pegar giz, vestir avental e subir para a sala. Missão daquele dia: convencer 40 alunos a ler e a ter prazer lendo Machado de Assis. Antes de explicar as virtudes do "Conto de Escola", de Machado de Assis, um aluno já levanta a mão e pergunta: - O que vai ter na merenda hoje, professor?
Uma aluna aproveita a deixa e pergunta se pode ir ao banheiro. Outros três querem ir também. O professor já havia perdido dez minutos da aula anotando coisas no diário de classe e fazendo a chamada dos alunos. Perdeu mais cinco com as perguntas. Agora faltam vinte e cinco para o fim da aula. O professor suspira. O dia está só no começo.
_
Mais dele em: http://fabioamorim.zip.net/
O professor levanta cedo, sai de casa com o café da manhã sendo digerido rapidamente. Caminha dez minutos a pé até um ponto de ônibus. Espera cinco minutos apenas, afinal, um país está saindo de casa naquela hora. O professor consegue entrar no ônibus.
Agradece numa breve oração o fato de ser bem magro e poder caber, com pouco desconforto, entre duas senhoras obesas, o ferro do banco do ônibus e as alças de apoio, que lhe batiam no rosto. Todo apoio é necessário para aquele momento em que o motorista resolve frear bruscamente e você cai.
Você e todas as outras "peças" de dominó chamadas de pessoas. A viagem poderia ser mais agradável se o ano todo não chovesse, não fizesse frio, não fizesse calor de deserto. Porque em uma qualquer dessas situações, as janelas são fechadas (respire-se num ambiente desses!), ou são abertas, mas aí são fechadas de novo porque chove.
Mas faz calor, então ficamos de janelas fechadas, no calor, porque está chovendo, e a água entra no ônibus porque nenhum gênio da arquitetura automotiva pensou num jeito de evitar que se precise fechar janelas quando chove. Será que é tão difícil inventar um guarda-chuva de ônibus? O professor, vinte ou trinta minutos, depois chega a uma estação de metrô.
Desce do ônibus, entra na estação, pega o metrô. Faz três baldeações e em trinta e dois minutos chega ao seu destino. Ou melhor, quase. Caminha mais dez minutos no meio do barulho de sempre, dos mendigos de sempre, das crianças de rua de sempre, atravessa uma avenida e finalmente chega a escola onda dará suas aulas.
Como sempre, chegou na hora certa. Hora de cumprimentar os colegas, tomar um café mal feito, pegar giz, vestir avental e subir para a sala. Missão daquele dia: convencer 40 alunos a ler e a ter prazer lendo Machado de Assis. Antes de explicar as virtudes do "Conto de Escola", de Machado de Assis, um aluno já levanta a mão e pergunta: - O que vai ter na merenda hoje, professor?
Uma aluna aproveita a deixa e pergunta se pode ir ao banheiro. Outros três querem ir também. O professor já havia perdido dez minutos da aula anotando coisas no diário de classe e fazendo a chamada dos alunos. Perdeu mais cinco com as perguntas. Agora faltam vinte e cinco para o fim da aula. O professor suspira. O dia está só no começo.
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Mais dele em: http://fabioamorim.zip.net/
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Acorde
Há tempos quero despejar consoantes ainda que fossem na contramão da gravidade. Meus sentimentos flutuam rumo ao céu o tempo todo. E a solidão é cada vez mais sofrida, mais intima de mim.
Não que seja inédito, pois o passado arrisca-se em meus braços insistentemente, mas a mudança as vezes impulsiona loucuras e incoerências. Não fazemos ideia de quem somos, o que fomos e o que faremos com o tudo que nos cerca.
Está tudo fora de tom. O que é certo e o que é acertar? Descobrir quem está com você é tão insignificante, é mais compreensível entender com quem você está. Quem nunca desejou fugir? Quem nunca foi excessivamente massacrado por sentimentos livres de ser, estar e acontecer?
O que somos senão holografia de nós...
Queria ser mais. Queria ser eu, queria ser você e todos que nos observam. E aqueles que não nos veem também. Queria sê-los e bebê-los. Ser o tempo, as nuvens, o céu e o vento. Queria ser o beijo que ele recebeu, o afago, o carinho e o tesão.
Amem.
Não que seja inédito, pois o passado arrisca-se em meus braços insistentemente, mas a mudança as vezes impulsiona loucuras e incoerências. Não fazemos ideia de quem somos, o que fomos e o que faremos com o tudo que nos cerca.
Está tudo fora de tom. O que é certo e o que é acertar? Descobrir quem está com você é tão insignificante, é mais compreensível entender com quem você está. Quem nunca desejou fugir? Quem nunca foi excessivamente massacrado por sentimentos livres de ser, estar e acontecer?
O que somos senão holografia de nós...
Queria ser mais. Queria ser eu, queria ser você e todos que nos observam. E aqueles que não nos veem também. Queria sê-los e bebê-los. Ser o tempo, as nuvens, o céu e o vento. Queria ser o beijo que ele recebeu, o afago, o carinho e o tesão.
Amem.
terça-feira, 6 de julho de 2010
O prazer dilacerador de ser e estar
Os ventos da manhã brindavam um ótimo dia. A temperatura era fria, no ponto ideal. Refrescante. Ouvia-se pela porta da sacada uivos das árvores selvagens. Os pés tocam o aspero, a caminho do chuveiro. Despiu-se em pensamento e permitiu que a água beijasse toda a sua vestimenta. Como louca, ria. Não o era, estava em sintonia. Enquanto as doces gotas percorriam seu corpo, respirava fundo. Lentamente. Uma vez. Duas vezes. Três.
(...)
A madrugava sussurava maravilhosos segredos. A temperatura continuava fria, no ponto etílico. Escutava-se pelas ruas sujas desejos sorrateiros. Os pés caminhavam sustentados pelo tic-tac do salto. Todas as noites, o mesmo lugar. Despiu-se na entrada, dos seus pudores permitindo-se. E como bailarina, dançava. Não era solitária estava plena. Enquanto o salgado suor percorria seu corpo respirava frenéticamente. Em dupla. Uma vez. Duas vezes. Três.
(...)
A madrugava sussurava maravilhosos segredos. A temperatura continuava fria, no ponto etílico. Escutava-se pelas ruas sujas desejos sorrateiros. Os pés caminhavam sustentados pelo tic-tac do salto. Todas as noites, o mesmo lugar. Despiu-se na entrada, dos seus pudores permitindo-se. E como bailarina, dançava. Não era solitária estava plena. Enquanto o salgado suor percorria seu corpo respirava frenéticamente. Em dupla. Uma vez. Duas vezes. Três.
domingo, 20 de junho de 2010
As lágrimas que não são minhas
Insistem em cair nas curvas rosadas da face. Enxugo-as para que ninguém as veja. Em toda esfera azul há olhos babando. Curvando-se a sentimentos inexplicáveis. Sentimentos mudos e selvagens, quase burros que saltitam a atmosfera humana. Eles não se calam. Eles nunca ficam satisfeitos. O ritmo continua exatamente igual. Como fora desde sempre. Um suave tilintar interno recorda-me de sorrisos que nunca lembrei. Eram como serpentinas em zero absoluto. Eu me lembro daquilo que nunca esqueci. E quase como a pausa do tempo, as salgadas escorrem ondulantes em eterno descompasso com o agora. Pudera. Fosse o contrário e o mundo pararia. O ventre descansa nas gélidas cinzas da janela, a procura de um amigo. E se como soubesse, o vento beija-me violentamente, qual cereja lambuza-se em calda doce. Como se enlouquecesse.
domingo, 6 de junho de 2010
Território
Estava ali, no marrom sujo de uma mesa fria, nú. Tão límpido quanto a neve, tão fresco quanto a primeira gota de orvalho da manhã. Ansiava com prontidão receber o líquido rubro do mel que o coloriria. As farpas dançavam, como verdadeiras manhãs cinzas olivas em busca de respingos recusados pela nudez. Longe, nas madeiras limpas e brilhantes repousavam olhos curiosos e excitados. Desejavam a valsa projetada por seus outros mesmos pés. Silêncio. O maestro aproxima-se. Deliberadamente esfrega os pêlos no néctar negro e aguado, em cima da madeireira fina e pragmática. Embebido seus desejos, aproxima-se em cima do desavergonhado.
Treme....
um pingo,
dois.
derrama-se.
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